Manoel de Barros foi ser outros. A maior riqueza do homem é sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou — eu não aceito. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas.
O que é a alma? De que cor ela é? Eu desconfiava de que minha alma, travessa, podia fugir enquanto eu sonhava e não conseguir mais voltar. Fazia de tudo para não pegar no sono, para manter a alma dentro de mim, onde era seu lugar.
E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo prazer lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de coitos e de acertos. Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
“Parece que recebo mais felicidade entre quatro paredes do que no meio das pessoas. Para mim, nunca foi difícil ficar sozinho. Sempre foi melhor. Era algo natural. Sou como esses animais que cavam buracos, é meu instinto. Quando estou só, recarrego a bateria, construo. Já fui deprimido, suicida, mas nunca fui um solitário. Ser só significa que outra pessoa pode resolver seus problemas. Eu precisava era de mim mesmo.”
Eu entendo o que você diz. Você deseja ser seduzida, admirada, está exausta de fazer esse trabalho. Não pretende ser simpática, carinhosa, receptiva. Não pretende nada, farta de tentar, de ir atrás, de se arrepender, de amar por dois. Você deseja não pensar agora, não tomar nenhuma decisão agora, não escolher nenhum lugar agora. Você deseja ficar envolta em histórias para se distanciar de suas dores. Você deseja sentir o medo chegando, o medo que é o primeiro sintoma da sinceridade. Você deseja a tensão que só vem depois que todas as palavras foram usadas. Você deseja a compreensão que é a vigília dos dedos em seus cabelos. Você deseja o sexo antes do sexo, durante a escolha das frases. Você deseja que o beijo seja apenas uma forma doce de se despedir e de se reencontrar. Você deseja dar não apenas o seu corpo, mas o seu silêncio. Você deseja que alguém segure seu rosto com as duas mãos, e que dê gosto para fechar os olhos em segurança. Você deseja se ver protegida pelo ciúme, o charme do ciúme, não o coice do ciúme. Você deseja não ter que se explicar, não ter que argumentar, não ter que provar coisa alguma. Você deseja que o outro insista com ternura, que se prontifique a ficar perto, que assuma provisoriamente sua vida até que possa dar conta de tudo de novo. Você deseja se sentir desejada. Como se fosse única, exclusiva. O que mais deseja neste momento é ser insubstituível. Está cansada de tanto ver a eternidade morrer. Você não precisa de milagres, mas de fé. Sem fé, não tem nem como amar. [Fabrício Carpinejar]
Eu não sou água pra me tratares assim só na hora da sede é que procuras por mim a fonte secou quero dizer que entre nós tudo acabou teu egoísmo me libertou não deves mais me procurar a fonte do meu amor secou mas os teus olhos nunca mais hão de secar [Paulinho da Viola]
Ainda não sei o que vale a pena nessa vida. Porque nos apresentar pessoas tão distintas e marcantes se logo depois vai nos tirar à força? Talvez eu ainda precise entender que felicidade é o beijo que se dá no presente, não planos de futurismos baratos. [Fábio Chap]
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
terça-feira, 12 de agosto de 2014
"Saindo da vida cronificada dos amores que fazem doer, das palavras que produzem feridas, dos encontros que germinam paixões, emoções e afetos sempre tristes e desvitalizadores"
Se você somente enxerga os defeitos de sua companhia, você não está apaixonado.
Se você já espaça os encontros, você não está apaixonado.
Se você espera a madrugada chegar para se despedir, você não está apaixonado.
Se você faz três refeições ao dia, você não está apaixonado.
Se você descreve detalhes da transa aos amigos, você não está apaixonado.
Se você transforma o whatsApp em e-mail, você não está apaixonado.
Se você não embarca no primeiro táxi para vê-la, você não está apaixonado.
Se você é passional no sexo e não disfarça a solidão depois dele, você não está apaixonado.
Se você desliga rápido o telefone e não sofre com a separação da voz, você não está apaixonado.
Se você não dispara a contagem regressiva para a próxima vez, você não está apaixonado.
Se você não aguenta confissões, você não está apaixonado.
Se você pode escolher, você não está apaixonado.
Se você é paciente, compreensivo e generoso, você não está apaixonado.
Se o passado dela não interessa, você não está apaixonado.
Se ela soa abusiva, invasiva, carente, desesperada, inadequada, é que você não está apaixonado.
Toda mulher que se aproximar de você será louca.
Mas, quando você estiver apaixonado, tenha certeza que estará tão louco quanto ela, a ponto de não se incomodar nem um pouco em assumir uma loucura maior que é a vida a dois.
Te quis e não soube a hora certa. Quis aquela hora. Quis imediatamente. E esse meu querer foi me ferindo. Pouco a pouco notei o engano, o terrível engano que foi me aproximar de você. Que foi querer você. Que foi amar você. Hoje descobri que há amores errados, sim. Que o destino erra em não corresponder. Que o destino erra ao nos cortar tanto. Há amores errados, sim. Que erram o caminho do carinho e pegam atalho nos ferimentos; na agressão ao coração. Há amores que erram por não saberem a hora de obedecer. Só tem um problema: é que a rebeldia e o erro me atraem de um jeito que não tem jeito. Parece que é no errado e no pecado que faço casa e me adapto. E me ergo. Te quis errado porque acertar não é meu foco. Minha meta é viver bem e feliz. Nem que seja por um triz da morte. Da dor.
Amo duas vezes: sendo e falando. Tenho o costume de explicar meu gosto. Não direi "eu sou assim, azar dos outros". Não sou ninguém sem os outros. O inferno é eu comigo. (...)
Amo ser a pessoa mais importante de alguém.
Amo, no fim, três vezes: sendo, falando e escrevendo.
O Lobo da Estepe perecia por sua própria independência. Havia alcançado sua meta, seria sempre independente, ninguém haveria de mandar nele, jamais faria algo para ser agradável aos outros. Só e livre, decidia sobre seus atos e omissões. Pois todo homem forte alcança indefectivelmente o que um verdadeiro impulso lhe ordena buscar. Mas em meio à liberdade alcançada, Harry compreendia de súbito que essa liberdade era a morte, que estava só, que o mundo o deixara em paz de uma inquietante maneira, que ninguém mais se importava com ele, nem ele próprio, e que se afogava aos poucos numa atmosfera cada vez mais ténue de falta de relações e de isolamento.
Havia chegado ao momento em que a solidão e a independência já não eram seu objetivo e seu anseio, mas antes sua condenação e sua sentença. O maravilhoso desejo fora realizado e já não era possível voltar atrás e de nada valia agora abrir os braços cheio de boa vontade e nostalgia, disposto à fraternidade e à vida social.
Tinham-no agora deixado só.
Não que fosse motivo de ódio e de repugnância. Pelo contrário, tinha muitos amigos. Um grande número de pessoas o apreciava. Mas tudo não passava de simpatia e cordialidade; recebia convites, presentes, cartas gentis, mas ninguém vinha até ele, ninguém estava disposto nem era capaz de compartilhar de sua vida.
Agora rodeava-o a atmosfera do solitário, uma atmosfera serena da qual fugia o mundo em seu redor, deixando-o incapaz de relacionar-se, uma atmosfera contra a qual não podia prevalecer nem a vontade nem o ardente desejo. Esta era uma das características mais significativas de sua vida.
Vai, não seja assim! Não fale a verdade, não se entregue, não se doe. As pessoas não querem a verdade. O que elas querem são só os benefícios de uma ocasião. De que importa a doação, a entrega e a sinceridade?? Só importa na hora de juntar teus cacos, fechar tua armadura e olhar tua cara de palhaço. Vai, não seja assim! Não se doe, não se entregue, não fale a verdade… seja tão idiota como os que o foram contigo e assim, preserva teu coração.
No dia em que caí no desequilíbrio e esfolei minha carne no asfalto eu não compreendi que era necessário olhar pra dentro e saber o momento de frear; de parar; de largar a larva e abraçar a borboleta num vôo ainda dolorido, mas despido de vaidades e velocidades juvenis.
Hoje, confesso, não sei dizer se meus pés tocam o mesmo chão de outrora. Sei que ainda não é hora era de sair de mim. Pelo contrário. O momento é de me ser e esse eu, pra engano seu, não é a porção visível da minha pele, esse eu é a poeira do universo. Ao me plantar no diverso de mim não ouso a arrogância de me sentir só. Meu lado de dentro não é vácuo nem rua sem saída. É uma bonita tentativa de suavizar o caos. De me conectar ao que sou. Ao que somos.
[Fábio Chap]
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Meu bem Use a inteligência uma vez só Quantos idiotas vivem só Sem ter amor E você vai ficar também sozinha E eu sei porque Sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo Quantas vezes eu tentei falar Que no mundo não há mais lugar Prá quem toma decisões na vida sem pensar Conte ao menos até três Se precisar conte outra vez Mas pense outra vez Meu bem Meu bem Meu bem Eu te amo [Roberto Carlos]
Age com bondade e sê fiel em qualquer circunstância do ideal ao qual te afervoras. Nunca revides, mesmo quando agredido, desperdiçando valiosa quota de energia com o que realmente não tem significado real, exceto aquele que lhe atribuis.
[Joanna de Angelis]
quinta-feira, 10 de julho de 2014
“Não me façam feliz. Por favor, não me saciem nem me deixem pensar que alguma coisa boa pode sair disso. Olhem para meus machucados. Olhem para este arranhão. Estão vendo o arranhão dentro de mim? Estão vendo ele crescer bem diante dos seus olhos, me corroendo? Não quero ter esperança de mais nada.”
De distâncias levadas a cabo, de ressentimentos infiéis,
de hereditárias esperanças misturadas com sombra,
de assistências dilaceradoramente doces
e dias de veia transparente e estátua floral,
o que subsiste no meu vocábulo escasso, no meu frágil produto?
[Pablo Neruda]
segunda-feira, 7 de julho de 2014
“Me dei conta, depois da vida me estapear a cara diversas vezes, que quem te quer faz o possível e o impossível para ficar contigo. É simples. Não é complicado ou complexo, não. A gente é que coloca vírgulas, exclamações e interrogações. Mas o amor de verdade é cheio de reticências, de continuidade. Porque você quer. E a outra pessoa também.”
— Clarissa Corrêa.
O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.”
A vida precisa ser paixão para ser vida, calada, ou faladora, taciturna ou desvairada, mas paixão.
O meio termo cabe às almas medíocres, prudentes, formalistas. (...)
Não é fácil arrancar espinhos.
Às vezes nos é mesmo custoso amputar o membro todo, mesmo correndo o perigo das hemorragias.
E fica-se à espera de coragem.
[Marques Rebelo em O Trapicheiro.]
domingo, 6 de julho de 2014
Hoje na minha boca
não cabem girassóis
cabe um poema podre.
Nunca se saberá como isto deve ser contado, se na primeira ou na segunda pessoa, usando a terceira do plural ou inventando constantemente formas que não servirão para nada. Se fosse possível dizer: eu viram subir a lua, ou: em mim nos dói o fundo dos olhos,e principalmente assim:tu mulher loura eram as nuvens que continuam correndo diante de meus teus seus nossos vossos seus rostos.Que diabo.
“Então vai lá: domine seu mundo, assuste seus monstros, afaste seus medos, crie suas expectativas, derrube suas angústias, acabe com sua ansiedade, preserve sua humildade, afogue seu ego, afague sua simplicidade. Você é artista e não um figurante da sua arte. Domine-a. Eduque-a. Xingue-a. Maltrate-a. Ame-a. Respeite-a. Entende-a de a a z. Ela será sua por uma vida inteira e até um pouco mais. Então vai lá! Aconteça o que acontecer: faça! Faça o que fizer: aconteça! Faça acontecer ou morra com a amargura de ter vivido no “poderia ter feito, no poderia ter acontecido…” Quer dor maior?”
—
Eu me chamo Antônio.
“Ora veja… É o que sempre acontece às pessoas românticas: enfeitam uma criatura, até o último momento, com penas de pavão, e não querem ver, nela, senão o que é bom, muito embora sentindo tudo ao contrário. Jamais querem, antecipadamente, dar às coisas o seu devido nome. Essa simples ideia lhes parece insuportável. A verdade, repelem-na com todas as forças até o momento em que aquela pessoa, engalamada por elas próprias, lhes mete um murro na cara.”
—
Dostoiévski
quinta-feira, 3 de julho de 2014
As pessoas continuarão vulneráveis a seus medos e maus hábitos até adquirirem o insight que as levará à disciplina. Devemos estar conscientes de que a pessoa em questão ainda não se corrigiu e que é preciso darmos o espaço e o tempo necessários para que ela encontre o seu caminho.
Às vezes nos rendemos a ansiedades extremas frente a determinadas situações para não nos submetermos ao medo das consequências de transformá-las. A vida não para e qualquer ansiedade tem em si o medo do que ainda não veio, do que não se pode saber. Tem em si um pouco de viagem no tempo - às vezes só de alma, às vezes de desespero, às vezes de inércia.
“Esperamos e esperamos. Todos nós. Não saberia o analista que a espera é uma das coisas que faziam as pessoas ficarem loucas? Esperavam para viver, esperavam para morrer. Esperavam para comprar papel higiênico. Esperavam na fila para pegar dinheiro. E, se não tinham dinheiro, precisavam esperar em filas mais longas. A gente tinha de esperar para dormir e esperar para acordar. Tinha de esperar para se casar e para se divorciar. Esperar para comer e esperar para comer de novo. A gente tinha de esperar na sala de espera do analista com um monte de doidos, e começava a pensar se não estava doido também.” — Charles Bukowski.
“Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.”
De todas as doenças, neuroses, erros constantes e defeitos nojentos que eu tenho, você é o que mais me preocupa. Me preocupa o feito que me causa a distância, o tanto que eu consigo fingir ("tá tudo bem, tá tudo bem, eu nunca gostei de você mesmo"), mesmo vendo seu jeito, sua insegurança, mesmo acreditando plenamente que não se apaixonaria por mim (essa ideia tem sido uma dúvida). Por que eu sei que foi. E aí de três em três meses você aparece, roça a barba que eu tanto gosto no meu pescoço, destila meia dúzia de pensamentos clichês que fazem sentido, depois fica em silêncio para me ouvir falar, me abraça por trás e vai embora feito um fantasma dizendo de novo: "Baby, não se apaixone por mim". E de longe a gente tem uma vida comum, e eu te vejo em todas as palavras que eu escrevo, em todos os discos que eu escuto, na droga de um cartão amarelado dizendo "obrigado, querida" me agradecendo por nada, e que eu nunca tive coragem de jogar fora. De todas as minhas neuroses, problemas, defeitos, doenças, você é o que mais me dá nojo. Você liga e pergunta se as coisas vão bem e eu te escondo a felicidade física ao ouvir sua voz, para que em algum lugar você acredite que eu sempre vou estar livre, muito embora eu não esteja. E a vida vai bem. Do lado de cá eu te proíbo em silêncio de se envolver com qualquer pessoa, amaldiçoando você e este seu coração quebrado em pedaços. Eu preciso que você continue sozinho. Preciso que continue sozinho por mim. Enquanto isso você aparece de vez em quando, enquanto eu finjo que está tudo bem tentando esconder meu ciúmes de gente doente, de pessoas que eu nem conheço. E aí você finge não se interessar por mim, mesmo que neste momento esteja com uma mão enroscada nos meus cabelos, soprando no meu ouvido que eu sou uma garota boba e eu penso que sou boba porque insisto em vir aqui escrever sobre você. Mesmo que você continue lendo. E que continue vindo, e que continue vindo, e que continue vindo. E que, no final de tudo, a gente seja a história de amor mais bem sucedida da minha vida.
Caí naquela depressão que me assalta de vez em quando – por que, Santo Deus?
Sei lá! Depressão neurastênica, vontade de ficar quieto, calado, macambúzio. Me custa até a simples locomoção doméstica.
Para sair de casa, é como arrancar uma tonelada inerte e sem rodas ladeira acima
[...]
Provisoriamente não cantaremos o
amor que se refugiou mais abaixo
dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza
os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse
não existe,
existe apenas o medo, nosso pai
e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos
mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das
mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores,
o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e
o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão
flores amarelas e medrosas.
"Somos esse grito pedindo pra ser ouvido. Esse ruído no ouvido da existência. Somos essa gente que clama o novo, mas age com velhos hábitos. E - nos achando sábios - encontramos fuga no orgulho. Aí é ferida pra tudo quanto é lado. É estrago. Danos irreparáveis. Miseráveis que somos, não nos doamos. Não mostramos a que viemos. O que fazemos é dar uma esmola ao coração do outro e ver no que dá. Porque nossa essência é mesquinha. Porque nos importa só o umbigo. Somos mentirosos em busca de responsáveis pela tragédia pouco romântica que é a vida. E de briga em briga, de morte em morte, vivemos na corda bamba da sorte. Sempre a provar que nossas ideias são melhores. Maiores. Mais sensatas e importantes, mas assim como antes, continuamos no limbo. Um purgatório onde poucos percorrem o único caminho que funciona: o amor."
Ao prosseguirmos, mantemos uma atitude neutra, deixamos de olhar para trás, para os lados ou mais para adiante. Ficamos com a vista presa no que está diretamente à nossa frente, preocupados somente com que é correto e essencial.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco, e os pontos sobre os 'is' em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos dos bocejos,corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho , quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
você era a maior invenção
do mundo
até que resolveu
me mandar descarga
abaixo.
agora é a sua vez
de esperar que alguém aperte
o botão.
alguém fará isso
com você,
puta,
e se eles não fizerem
você fará –
misturada ao seu próprio
adeus
verde ou amarelo ou branco
ou azul
ou lavanda.
E saudade se faz conta no momento futuro? Digo eu, contrariada. Me coloco a fazer conta também – distância, conta de saudade, desejo de uma solidão com outros tantos que não seja eu, uma flor jamais, nada de chocolates, a minha mão nunca mais viu a sua. Eu imploro. Fico confusa sobre o que sobrou no final desta equação – nem sequer todos os meus orifícios. Me lembrei que nessas coisas não se faz conta, a gente sente, tenta sentir, tenta não sentir, se confunde, se afoga e às vezes até vira pedra. [Mariana Klein - Trecho de texto de Dezembro/2013]
o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.