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terça-feira, 27 de maio de 2014

"Baby, não se apaixone por mim"

De todas as doenças, neuroses, erros constantes e defeitos nojentos que eu tenho, você é o que mais me preocupa. Me preocupa o feito que me causa a distância, o tanto que eu consigo fingir ("tá tudo bem, tá tudo bem, eu nunca gostei de você mesmo"), mesmo vendo seu jeito, sua insegurança, mesmo acreditando plenamente que não se apaixonaria por mim (essa ideia tem sido uma dúvida). Por que eu sei que foi. E aí de três em três meses você aparece, roça a barba que eu tanto gosto no meu pescoço, destila meia dúzia de pensamentos clichês que fazem sentido, depois fica em silêncio para me ouvir falar, me abraça por trás e vai embora feito um fantasma dizendo de novo: "Baby, não se apaixone por mim". E de longe a gente tem uma vida comum, e eu te vejo em todas as palavras que eu escrevo, em todos os discos que eu escuto, na droga de um cartão amarelado dizendo "obrigado, querida" me agradecendo por nada, e que eu nunca tive coragem de jogar fora. De todas as minhas neuroses, problemas, defeitos, doenças, você é o que mais me dá nojo. Você liga e pergunta se as coisas vão bem e eu te escondo a felicidade física ao ouvir sua voz, para que em algum lugar você acredite que eu sempre vou estar livre, muito embora eu não esteja. E a vida vai bem. Do lado de cá eu te proíbo em silêncio de se envolver com qualquer pessoa, amaldiçoando você e este seu coração quebrado em pedaços. Eu preciso que você continue sozinho. Preciso que continue sozinho por mim. Enquanto isso você aparece de vez em quando, enquanto eu finjo que está tudo bem tentando esconder meu ciúmes de gente doente, de pessoas que eu nem conheço. E aí você finge não se interessar por mim, mesmo que neste momento esteja com uma mão enroscada nos meus cabelos, soprando no meu ouvido que eu sou uma garota boba e eu penso que sou boba porque insisto em vir aqui escrever sobre você. Mesmo que você continue lendo. E que continue vindo, e que continue vindo, e que continue vindo. E que, no final de tudo, a gente seja a história de amor mais bem sucedida da minha vida. 

-- Paula Gicovate em "Este é um livro sobre amor"