quarta-feira, 28 de maio de 2014

a maior solidão é a do ser que não ama.

Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

— Vinícius de Moraes. 

terça-feira, 27 de maio de 2014

"Baby, não se apaixone por mim"

De todas as doenças, neuroses, erros constantes e defeitos nojentos que eu tenho, você é o que mais me preocupa. Me preocupa o feito que me causa a distância, o tanto que eu consigo fingir ("tá tudo bem, tá tudo bem, eu nunca gostei de você mesmo"), mesmo vendo seu jeito, sua insegurança, mesmo acreditando plenamente que não se apaixonaria por mim (essa ideia tem sido uma dúvida). Por que eu sei que foi. E aí de três em três meses você aparece, roça a barba que eu tanto gosto no meu pescoço, destila meia dúzia de pensamentos clichês que fazem sentido, depois fica em silêncio para me ouvir falar, me abraça por trás e vai embora feito um fantasma dizendo de novo: "Baby, não se apaixone por mim". E de longe a gente tem uma vida comum, e eu te vejo em todas as palavras que eu escrevo, em todos os discos que eu escuto, na droga de um cartão amarelado dizendo "obrigado, querida" me agradecendo por nada, e que eu nunca tive coragem de jogar fora. De todas as minhas neuroses, problemas, defeitos, doenças, você é o que mais me dá nojo. Você liga e pergunta se as coisas vão bem e eu te escondo a felicidade física ao ouvir sua voz, para que em algum lugar você acredite que eu sempre vou estar livre, muito embora eu não esteja. E a vida vai bem. Do lado de cá eu te proíbo em silêncio de se envolver com qualquer pessoa, amaldiçoando você e este seu coração quebrado em pedaços. Eu preciso que você continue sozinho. Preciso que continue sozinho por mim. Enquanto isso você aparece de vez em quando, enquanto eu finjo que está tudo bem tentando esconder meu ciúmes de gente doente, de pessoas que eu nem conheço. E aí você finge não se interessar por mim, mesmo que neste momento esteja com uma mão enroscada nos meus cabelos, soprando no meu ouvido que eu sou uma garota boba e eu penso que sou boba porque insisto em vir aqui escrever sobre você. Mesmo que você continue lendo. E que continue vindo, e que continue vindo, e que continue vindo. E que, no final de tudo, a gente seja a história de amor mais bem sucedida da minha vida. 

-- Paula Gicovate em "Este é um livro sobre amor"

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Depressão neurastênica, vontade de ficar quieto, calado, macambúzio.

Caí naquela depressão que me assalta de vez em quando – por que, Santo Deus?
Sei lá! Depressão neurastênica, vontade de ficar quieto, calado, macambúzio. Me custa até a simples locomoção doméstica.
Para sair de casa, é como arrancar uma tonelada inerte e sem rodas ladeira acima
[...]

Otto Lara Resende

domingo, 18 de maio de 2014

não cantaremos o amor que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Provisoriamente não cantaremos o
amor que se refugiou mais abaixo
dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza
os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse
não existe,
existe apenas o medo, nosso pai
e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos
mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das
mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores,
o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e
o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão
flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade

Como isto é pobre, insípido, enfadonho!

Porém minh’alma triste e sem um sonho
Murmura olhando o prado, o rio, a espuma:
Como isto é pobre, insípido, enfadonho!

Fagundes Varela

terça-feira, 13 de maio de 2014

Once I built an ivory tower
So I could worship from above
When I climb down to be set free
She took me in again





[Eddie Vedder]

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Amanhã será Jamais!...

Vão dizer que são tolices
Que podemos ser felizes
Mas tudo que eu sei
Não dá prá disfarçar
Dessa vez
Doeu demais!
Amanhã será
Jamais!...


[Gal Costa]